terça-feira, 8 de novembro de 2011

30.000 pés

Um dia chegar te ouvir dizer "não é por mal, mas vou te fazer chorar, hoje vou te fazer chorar".
Estou alto, há 30.000 pés, mal consigo te ouvir. Eu até estou me esforçando, mas aqui venta, aqui está frio, meu casaco está com você, mas você não me alcança, mas ainda estou alto, mas ainda venta, ainda sinto frio. O frio vem de dentro, e se espalha por fora, sinto o frio saindo pelos meus poros, são tantos poros, acho que estou completamente destruído, parece que só tenho poros, parece que não existe nada completo em mim. Recomeço a reconsiderar a ideia do tudo ser vazio. Aquela ideia do átomo, do núcleo denso ser 1/30 da eletrosfera vazia. Será que somos tão vazios assim? Estou produzindo frio, estou tão gelado, não consigo me sentir, estou subindo. Agora quase não consigo mais te ver, só existe bolinhas verdes num mar cinza, bolinhas brancas no mar azul, bolinhas, nuvens, frio. Já estou me habituando ao frio, gostaria de saber o que você está tentando me dizer, é como se eu pudesse ouvir algo, ruídos, vogais acentuadas, mas eu sei que eu não posso estar te ouvindo, eu sei que estou muito distante, mas não ache que estou confundindo sua voz, é coisa da minha cabeça. Sim, minha cabeça está criando caso, criando você. Eu gostaria que você estivesse aqui, me aquecendo, esquentando, esquecendo, gostaria de gelar você um pouquinho, é tão bom esse ar frio, aprendi a gostar de meus poros, apesar de achar que eles me deixam vazio. Sim, meus poros representam todo o vazio, todo o vazio que pode caber em poucos núcleos. De onde vem tanto poro, tanto frio, tanta falta. Eu tinha aprendido que o metabolismo aquece, libera calor, sempre fui acostumado a sentir calor, a fugir do calor, e agora me encontro na busca dele, não por saudade, não sinto falta de tanto calor, de suor, de cansaço, mas seria mais fisiológico sentir calor. Mais fisiológico? Existe menos fisiológico? Existe isso tudo que está acontecendo? Ainda não te ouço. Não consigo ouvir nada que está acontecendo nesses mares cinzas, azuis. Mas estou gritando, você deve estar ouvindo. Queria que só você ouvisse, mas não posso gritar mais baixo, como eu amo o sussurro. Sim, o sussurro. Sussurraria isso tudo no seu ouvido, mas tenho que gritar, gritar o mais baixo possível, na tentativa de só você ouvir meus lamentos de sua falta. A falta. O sol não pára de brilhar. É incrível como ele brilha soberano, acima das nuvens, meus olhos doem, meus olhos doem de luz e meu corpo congela por si só. Você consegue imaginar isso? Consegue imaginar meu corpo congelado e meus olhos cegos de luz? É como uma exposição de horrores, como um poste sobre geleiras em funcionamento no inverno do Alasca. Consegue imaginar? Os ossos doem, devagar...