quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Poeira

Estamos deitados estamos quentes estamos parados estamos andando estamos andando lado-a-lado estamos andando estamos rápidos não podemos nos acompanhar estamos andando não sei quem está mais rápido quem vai chegar primeiro estamos andando um-passa-o-outro estamos em movimento estamos andando mais rápido estamos ofegantes não há cansaço estamos andando estamos chegando estamos andando sentimos a terra entre os dedos sentimos o calor de um chão que parece não conhecer a noite estamos andando mais rápido estamos fingindo corrida estamos mais rápidos não sabemos mas estamos estamos mais rápidos estamos sentindo o calor como brasas afiadas mas o sangue também está quente estamos mais-e-mais rápidos estamos andando muito rápido estamos chegando ao limite estamos entre o caminhar rápido e a corrida estamos no meio do caminho estamos estamos andando muito rápido ou estamos correndo não estamos nos vendo não estamos perto ouvimos o barulho um-do-outro o arfar dos pés na terra seca estamos de algum modo no mesmo ritmo estamos correndo somos como poeira agora não somos como o vento que só deixa o rastro poeira estamos deixando poeira duas linhas duas linhas de areia erguidas somos apenas a causa deixamos a areia como rastro estamos correndo o fôlego começa a faltar os pés não pisam mais o chão eles flutuam em carne viva em velocidade indolores e corremos corremos muito não chegamos nunca chegamos mas corremos como quem acredita estar no caminho certo como quem acredita em caminho certo corremos corremos tanto você sente o quanto corremos ou será que não ou existe algo maior ou o caminho está errado corremos corremos como quem voa alto como se não existisse nem nuvem continuamos correndo não mais lado-a-lado porque só sobrou o correr só nós resta correr.