sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Profundamente

Eles se olhavam profundamente, como quem quer enxergar além, mas com as cabeças tão vazias de sentido que só encontrariam vento por detrás dos olhos. Tinham acabado de falar sobre cantores de Jazz que estavam curtindo no momento, esgotaram suas curtas listas, a seguir faltou assunto. Recorreram o mais depressa possível às xícaras na mesa, numa tentativa desesperada de disfarçar silêncio com cafeína. Engoliram o café lentamente, como quem quer tempo, espaço, fugir. As xícaras ficaram vazias. Ele olhou bem para o fundo da xícara e percebeu que ela estava tão vazia quanto ele. Uma sensação de desproteção, nudez, fraqueza. Sentiu seu corpo se derretendo em meio ao constrangimento dela, involuntariamente seu corpo começou a produzir lágrimas para encher a xícara vazia e para que assim pudesse beber algo, pudesse fingir sede, fingir qualquer coisa que disfarçasse um término. Ao começar a chorar o consciente pedia para que parasse, implorava, se arrastava aos joelhos com mãos em prece. Repetia para si mesmo “Não, lágrimas não. Por favor, que nada pontue esse fim. Que nada seja esse fim. É o fim? Não, lágrimas não. Por favor.”