Eles se olhavam profundamente, como quem quer enxergar além,
mas com as cabeças tão vazias de sentido que só encontrariam vento por detrás
dos olhos. Tinham acabado de falar sobre cantores de Jazz que estavam curtindo
no momento, esgotaram suas curtas listas, a seguir faltou assunto. Recorreram o mais depressa possível às xícaras
na mesa, numa tentativa desesperada de disfarçar silêncio com cafeína. Engoliram o café lentamente, como quem quer tempo, espaço, fugir. As
xícaras ficaram vazias. Ele olhou bem para o fundo da xícara e percebeu que ela
estava tão vazia quanto ele. Uma sensação de desproteção, nudez, fraqueza. Sentiu seu corpo se derretendo em meio ao constrangimento dela,
involuntariamente seu corpo começou a produzir lágrimas para encher a xícara
vazia e para que assim pudesse beber algo, pudesse fingir sede, fingir qualquer
coisa que disfarçasse um término. Ao começar a chorar o consciente pedia para
que parasse, implorava, se arrastava aos joelhos com mãos em prece. Repetia
para si mesmo “Não, lágrimas não. Por favor, que nada pontue esse fim. Que nada
seja esse fim. É o fim? Não, lágrimas não. Por favor.”