era sábado pela manhã, assim como todos os sábados pela manhã costumam ser lindos, esse também o era. não havia sol, não havia chuva. era um silêncio cinza que tomava o dia. era sábado de manhã, era hora de esperança, de a vida se refazer na barriga, e crescer - sendo em seguida vomitada sem o ácido amargo dos vômitos de rejeição. era sábado de manhã, o blackout escondia os poucos raios de sol, e nem sempre ao acordar é possível se lembrar que existe um blackout te impedindo de amanhecer. cerrou os olhos novamente, na procura de qualquer fresta de luz -não havia. fechou os olhos e se esquentou no calor que irradiava ao seu lado. abraçou com todos os braços possíveis na esperança de incendiar o quarto e desaparecer em cinzas. alguns calores são impossíveis de moderar, de ignorar, de se afastar. abraçou o corpo macio que repousava ao seu lado, e logo este se virou em sua direção. se olharam de olhos fechados e se beijaram sem tocar os lábios. era o calor que guiava cada movimento, cada toque, cada cheiro. o medo de acordar o corpo ao lado se transformou em prazer, e logo seu corpo rígido se derreteu em relaxamento e gozo. aproveitou o movimento sincrônico do momento para aquecer sua barriga, coxas, pés, pescoço e peito. seu corpo por completo se aqueceu. e o que poderia se tornar calor, logo se tornou completo conforto e paz.