quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Joana da roupa colada, decotada, lábios vermelhos, ninguém viu. Ninguém viu a pureza de Joana, ninguém viu sua unha não-pintada, seu cabelo festivo de natureza, todos nunca viram Joana. Joana da Conceição vai à igreja aos domingos para servir de comentário, aprendeu a não se importar demais (descrente da indiferença, e bela). Boca carnuda, ancas largas, tetas fartas, olhos incompreensíveis, "tão bela a Joana"- era o que moço, adulto, velho, ou qualquer outro animal dizia sem censura.
Joana estudou até o dia em que percebeu que sabia muito pouco e resolveu não se importar em saber mais, cansou de olhar para as coisas e começar a nomear, a calcular, a tirar o mistério que antes fora inerente a tudo que via. A suposta fogosa Joana frequentava três igrejas e não sabia em que deus acreditar, enquanto os desinformados pensavam: "é um só Deus, ela apenas o vê com mais frequência e em perspectivas diferentes", ela realmente se divertia com tal pensamento, pois era ciente da existência dos vários deuses e que a religião proibida de fato era a falta dela, ser atéia, no seu caso.
Joana nunca deu espaço a homem nenhum, suas opulências inibiam-na e atiçava-os. Não desistiu de viver, sabia que tinha preguiça do dia, mas por falta de informação decidiu não morrer, só tinha pai e o amava como o padre finge amar o celibato (mas não era amor fingido, era inclusive reservado), anunciava tal sentimento duas vezes ao ano e temia que um dia não pudesse fazer cara feia para ele, a cara que ele nunca resistiu sem devolver-lhe com um sorriso, o único homem que amara, até morrer do coração.

sábado, 6 de dezembro de 2008

minhavisão.

As coisas boas não se completam.

As coisas boas não podem ser completadas, é o vazio delas que fazem elas se tornarem realmente boas, realmente necessárias, saborosas. Não apenas alimentos, todas as coisas existentes, e até as que haverão de existir. O vazio é tão bonito, é preciso sim ver a beleza do vazio, é ele que dá importância as coisas, dá vida. A vida cheia deve ser sem graça, sem sabor.
Os cheiros, as cores, são sempre constantes, são sempre amplificadas, e o vazio? o vazio faz a infinidade das pequenas coisas, das grandes coisas, das coisas.
Enamorado pela indiferença, principio um gostar pelo vazio, um admirar. Um gostar é pouco, seria um admirar mais adequado.
O vazio é tão importante que muitas pessoas já quiseram se esvaziar ao menos um dia, esvaziar outras pessoas, evadir uma invasão.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

o que restou do meu mundo; uma pergunta. Quando penso em escolher algo, já está escolhido, mundo pré-parado, um saco. Até as luzes irritam, coisa boa não há de ser. Nunca vi agonia com bons olhos, nem dor nos ossos, dá uma preguiça do tamanho de um elefante, daqueles de filme norteamericano, dá tanta coisa. Inclusive, no meio de tantas coisas, dá vontade de nada, deitar e ouvir alguma respiração, sem música, sem programas de televisão, sem filmes.
vejo a menina rodar,
sem carir, sem cantar.
Eu vejo a menina sorrir,
sem foco, sem dentes.
e vejo a chuva cair, encobrir,
a menina que dança, a menina
que balança.
Me perco na dança, embolo as pernas e
a menina rodopia.
fico tonto, tenho
dores, coisa de encanto.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008