sexta-feira, 8 de maio de 2009

Discernir o ser do não ser sempre foi uma confusão da cabeça do Luca, ele nunca soube o que ao certo era errado e deixou por fazer alguns possíveis acontecimentos. Diferente do outro Luca, seu vizinho, já nasceu sorrindo, esbanjando ilusão e hipocrisia. Desde que viu a face do obstetra soube que não gostaria da vida terrena, mas mesmo assim hesitou em tirar os pés do chão, pregou-se em granito bege com manchas escuras e fingia flutuar com todo peso aos seus pés, em seus pés. Desfilava os dentes que eram mais alvos que marfim pelas ruas de barro, era o mais simpático e nunca marcou o coração de alguém, como se fosse preciso ter defeitos para ser reconhecido como pessoa, humano, tocável. Nas férias de inverno, ao acordar, foi silenciosamente até o ouvido da mãe e lhe disse baixinho "tenho dor no peito esquerdo" a mãe coçou os olhos, ainda untados pelo sono, piscou algumas vezes aqueles olhos negros e bebeu um gole de água, sentou-se apoiada na cabeceira da cama, como se não tivesse força para apoiar-se sozinha, e respondeu "como filho? o que você disse?" ele respirou fundo, como se aquilo doesse, e ratificou "tenho dor, mãe. no peito esquerdo" a mãe começou a perguntar sobra a dor, perguntou como era, onde era, quando começou... então o menino deu um pulo, que mais pareceu soluço, e respondeu que não sabia nada a respeito do que fora perguntado, sabia que doía. começou a se perguntar se sempre doera e só sentira agora, ou se era realmente algo novo em seu corpo até então fechado para incômodos. enfim disse para a mãe "não quero ir ao hospital" a mãe, que até então só tinha pensado no hospital por costume, mas não como solução, passou a encolher-se no canto da cama e puxou Luca para seus braços-de-mãe "é paixão, filho?", "não mãe, não sei. e você, paixão?", "não filho, a dor é no seu peito", "mas então porque chora?", "ah filho, eu senti essa dor por um rapaz antes de conhecer seu pai", " e o que esse rapaz fez?", "ele foi humano...", "e onde ele está agora?", "onde ele está eu não sei bem, mas lembro-me sempre do dia em que ele acordou, chegou no meu ouvido, eu mal podia ouvir, e falou de uma dor, no peito esquerdo, o suficiente para morrer depois de completar dizendo que a dor era boa".
Luca estava esquecendo a dor quando resolveu ser ele mesmo, sem marfim.