quarta-feira, 6 de maio de 2009

puro instinto

Animais zumbiam enquanto renascia o Sol, após morrer milhares de vezes. Ele estava nu no deserto e se achava completo, sereno. Sentiu que estava cumprindo sua missão, ou que tinha cumprido com louvor. Hesitou tenso, lembrou de seu quase-afilhado que morrera enquanto plano semi-completo, era um feto, um belo projeto humano que não vingou, faltou-lhe vida, e após o incidente se concretizar a mãe não vingou em sintonia, morreu de fome com a dispensa cheia. Findado o pensamento, o Sol alcançou seu esplendor do meio dia e sussurrou luz na pele do corpo desprotegido, seguiu-se de arrepio e pergunta "Deus, se acaso cumpri minha missão, e todos cumprem suas missões, a missão de uns é matar outros?" Deus engasgou, e ao chegar neste questionamento o Sol esfriava e banhava de cores as lágrimas secas que deslizavam entre as rachaduras da pele áspera. Viu o Sol no auge da sua beleza e percebeu que era o momento mais próximo de sua nova morte, os animais voltaram a fazer barulho, que dessa vez se assimilava mais à silêncio, como se respeitassem o momento. O Homem lembrou do rapaz que rezava diariamente pedindo dinheiro, riqueza, poder... e saúde, este sempre fora atendido pelo tão generoso Deus, que agora se encontrava engasgado com tão simples questionamento, Deus que, por rezar baixo (fruto da inanição), não conseguiu escutar o mendigo que morreu de fome defronte ao supermercado. Ás onze e cinquenta e oito sentiu uma fraqueza, não sabia o que Deus era, no que Deus se tornara, perdeu a fé no último minuto de vida, escreveu na areia que não havia missão, e com o frio deitou-se em posição de feto, servindo como ponto final de uma frase recém concluída. Ao amanhecer, ao renascer o Sol, havia uma nova duna, nenhuma frase, nenhum corpo, apenas alguns bichos que festejavam o dia sem consciência, puro instinto.