quarta-feira, 1 de julho de 2009

septuagésimo oitavo outono, Presente-passado.

Chegou em casa às 22:17, cansado, havia dançado três musicas em comemoração ao seu septuagésimo oitavo outono, havia subido os três velhos lances de escada, ofegava. Sentou-se na cadeira de balanço na tentativa de recuperar o fôlego e ficou enjoado após se balançar por alguns poucos segundos, a cadeira rangia. A noite parecia terrível e nem se lembrava mais da época em que suas aventuras engoliam o tempo escuro, noturno. Queria dormir, mas o sono não chegava e como sempre fora prático resolveu usar tal tempo para organizar a última gaveta do criado-mudo. Segurou lentamente o puxador da gaveta enquanto se apoiava no tapete e quando conseguiu se sentar quebrou o puxador, teria algo a mais para fazer no dia seguinte. Ele estava feliz, não sabia por que, não ganhou nenhuma ruga ao pensar no prejuízo que tinha acabado de conquistar e conseguiu, com sacrifício, abrir a gaveta mais pesada do apartamento. Havia ali apenas uma caixa preta com rabiscos brancos e ele se assustou ao se lembrar do que poderia haver naquela caixa, mas, como um bom organizador (curioso), abriu-a para organizar as coisas que ali permaneciam, as coisas que não existiram por um longo tempo. Sua primeira sensação foi a de ter conseguido quebrar a barreira do tempo, lia aquela grafia muito bem desenhada "Amor, espero que esta data se repita por mais uns duzentos anos... Felicidades" que o fez lacrimejar e lembrar do cartão que recebera quando fez vinte e três anos, não se lembrava da dona da letra, mas sabia que havia sido uma pessoa especial, chegou a conclusão que somente pessoas especiais seriam capazes de mandar um cartão como aquele. Secou o rosto e umedeceu o nome desconhecido, olhou com mais atenção para aquela incógnita e mergulhou a mão bem no fundo da caixa que reluzia velhas noticias, seus dedos tatearam um papel rústico, que chegava a arranhar a pele, puxou sem pensar e avistou um pacote amarelo-mostarda, estufado de preenchimentos e lacrado com uma fita preta que quase estava sem cola. Como morava só e não mais se lembrava lucidamente da época em que dividia o apartamento com sua ex-namorada, resolveu abrir, não estaria violando a privacidade de ninguém, a não ser de seu passado. Seus olhos se petrificaram e suas mãos tremeram até que o pacote aberto caiu, espalhando cartas pelo chão, como estava sentado e a altura era pouca não espalhou muito, fez um pequeno monte, eram dezenas de correspondências: todas endereçadas e seladas que acabaram guardadas em um envelope rústico. O aniversariante hesitou, mas logo em seguida abriu a primeira carta do bolo, ela estava endereçada para uma desconhecida e ao abri-la notou manchas amareladas e lembrou que havia borrifado colônia de begônia naquele papel adormecido, enquanto se lembrava do cheiro do perfume as palavras eram lidas e voltavam a dar vida ao papel-das-manchas-sem-cheiro e ao ler "...espero que não te machuque tanto quanto penso que machucarei, mas o filho que sua prima espera é meu..." as mãos começaram a tremer e a mente voltava no tempo para lembrar o sol queimando o rosto de sua então amada enquanto decidia não contar nada, decidia não fugir, decidia um aborto, um silêncio. Passou quarenta e dois minutos em transe até que se desprendeu da carta, soltando-a sem cuidados, e foi com sede beber a próxima sem se importar com nomes e fingindo indiferença. Já passava das 23:20 quando escolheu a segunda carta, esta não tinha manchas, era seca como a terra do sertão, e as palavras eram poucas e muito bem escolhidas, era um pedido disfarçado de apelo com algum sentimento postiço dizendo entre outras poucas coisas "... eu não amo você, esse filho não tem pai, seria melhor..." e ao ler estas palavras que haviam sido lançadas com raiva no papel branco-seco, seus 78 anos se reprimiram a 15 e ele começou a chorar feito um adolescente que fora impedido de ir para a festa do domingo à noite, imaginando uma vida inteira regida de outro modo. Esta carta não havia sido simplesmente guardada, tinha o carimbo do correio e um rabisco assinado dizendo que o endereço era inválido, coisa que só reparou após ler a última frase "se você decidir tirar a criança não precisa mais entrar em contato comigo.", sua mente cansada mostrou-se jovem unindo todas as informações e transformou-as em lágrimas que pareciam querer fugir daqueles olhos que por tanto tempo precisaram de colírio para se hidratar. Agora que era sozinho descobria que pedaços seus poderiam estar espalhados por aí, despedaçados também. Com um lenço verde-bandeira, diminuiu a umidade do rosto e pegou um envelope qualquer, fora de ordem, desta vez a letra não era a sua, olhou rapidamente o remetente e reconheceu o nome de sua mãe, lembrou-se de seu sumiço e de seu posterior enterro, a carta não era selada, não havia marcas de cola e era endereçada a seu pai, abriu-a lentamente e avistou as primeiras palavras “Meu bem, tenho tuberculose... as crianças não precisam... entrarei em contato...você... se eu amo?... é por amor... Não conte a eles...notícias...”. Finalmente entendia o sumiço repentino de sua mãe e o seu aparecimento em um caixão meses depois. Pensou em ir dormir, acabara de descobrir histórias que foram omitidas de sua vida, achou que não sabia quem era, sentiu-se superficial. Mas conscientemente sabia que estava curioso, que estava curioso para saber mais de seu passado, saber das entrelinhas e tentar finalmente ser ele mesmo, ou o que teria sido se soubesse o que era. O relógio digital que era quase parte daquele criado-mudo estava zerado e quanto mais o tempo passava, mais o sono fugia, ele não queria escapar da curiosidade e na verdade não tinha como, não se tratava da vida da vizinha ou do irmão, eram pedaços de sua vida em papéis que estavam ali, na sua frente, papéis mortos que gritavam. Parou e racionalizou, começou uma procura nervosa em busca de novas cartas da mãe, passou por vários nomes, entretanto o de sua querida mãe não se repetiu, era apenas uma, ele releu a carta da mãe mais sete vezes e separou-a colocando em cima da cama, embaixo do canto do travesseiro amassado. Escolheu outra carta, mas antes de abri-la ficou tentando adivinhar o que aquela carta continha, seria mais tormento ou um suspiro de alivio? O nome dessa vez não lhe era estranho, se tratava de um velho amigo que havia falecido há quatro anos, depois de alguns minutos abriu a carta e, como estava cansado, ficou feliz ao ver que as palavras eram poucas e que a sua letra era bastante legível. Não era exatamente uma carta repleta de conteúdo, eram poucos e pequenos acontecimentos que eram narrados por ele há quarenta anos “...e resolvi casar... meu pai está bem... mudei de empresa... vamos marcar uma cerveja e um carteado...”, ficou muito feliz em relembrar de coisas boas do passado, já estava pensando que seu passado tinha sido uma mentira, foi então que começou a se perguntar quem guardara tantas cartas sem avisá-lo, não podia mais ligar para o pai pois este havia falecido semanas atrás e seus irmãos não se lembrariam de nada, eram muito novos na época. Abriu outras cartas, mas não houve muita surpresa, apenas ficava explicado o porquê de algumas respostas nunca terem chegado, a culpa era da ausência das perguntas. Depois de cobrir o tapete e parte do chão com papéis escritos e envelopes dilacerados, começou a procurar as primeiras cartas, mas não conseguiu achar, se ergueu lentamente tentando enganar a hérnia de disco e avistou o relógio que mostrava 03:56, seus olhos já estavam mais fechados do que abertos e seu corpo só pedia descanso em uma cama macia, deitou-se. Seu relógio biológico deu defeito, passou das cinco da manhã e seu corpo não demonstrava nenhum sinal de movimento, quando o Sol se posicionou no alto, sua cama fervia de calor, seu corpo transpirava e seus olhos se abriram, retirou o cobertor daquele corpo em chamas e se sentou, fechou os olhos com força e pediu para ser um sonho, era seu único desejo, mas as cartas tomavam conta de todo o piso do quarto, não que tenham se multiplicado, mas estavam completamente espalhadas, “Maldita janela aberta, maldito vento!”, foi a única frase que proferiu na tarde de um sábado ensolarado. Resolveu procurar novamente as primeiras cartas que lera, queria ter certeza do que realmente as tinha lido, se achasse, prometeu pra si mesmo, iria buscar mais respostas, buscar as respostas que nunca tiveram uma pergunta. Anoiteceu rapidamente sem nenhuma carta fixa em sua mão, apenas a carta da mãe, amassada e um pouco rasgada, tinha destaque naquele mundo de papéis. Olhou novamente pela janela, mas sabia que se tivesse voado já estariam onde os olhos não alcançam. Cansado e com dor em cada parte do corpo foi dormir novamente, desta vez não de qualquer maneira, estava abraçado com a carta da mãe e rezando para achar as demais cartas, as cartas que “entra ano e sai ano” e não são encontradas.