sexta-feira, 10 de julho de 2009

Sophia - Nerina Pallot

5h e da lareira escapa uma sinfonia, quando se convive em confusões acaba-se aprendendo a torná-las fatos corriqueiros, rotinas, a ter planos prontos para aplicar, pois sabe-se que as coisas mudam sempre e resta dar como resposta aos imprevistos um sorriso dizendo "eu sempre soube que aconteceria assim", mesmo que nunca se tenha imaginado, mas vai ter na pele a firmeza de uma certeza. Sofia, Sofia, estou queimando, estou queimando. Quando se aprende a fingir, o fingimento torna-se a maior verdade, não deixando que nenhum músculo trema ao sorrir ou ao pronunciar palavras que desdizem tudo que se passa em uma cabeça turbulenta, vendaval-organizado. Aprendo a linguagem das palavras quando falo, e é estranho falar tanto quando tudo parece condensado na mente, seja sobre a história de uma criança que nasceu antes da hora ou sobre a vida inteira de uma menina que tinha sorte. Desdobrar os acontecimentos costuma, sempre, causar ansiedade.
Sofia, Sofia, estou aprendendo que sem algumas coisas outras tornam-se impossíveis, apesar de que o impossível sempre revela-se como improvável, existindo uma pequena chance de ser contrariado. Você se machuca, mas continua se sentindo viva como nunca? Às vezes a vontade de se reumanizar é estremecedora, principalmente quando não se machuca o suficiente para comprovar para si mesmo que está realmente vivo, acontecimentos efêmeros, pequenos arranhões, cicatrizes que não ficam por mais que alguns dias. Mas quando não se quer saber que vive, não se quer ter a certeza, não há porque se expor e se machucar.
Sofia, eu só sinto saudade do que não existe mais. Sofia, só se termina uma história quando todos os "i" tem os seus pingos, e seus "t" os seus cortes finais.