domingo, 31 de outubro de 2010

two birds

(para ler ouvindo Two Birds, Regina Spektor)


Pois então, o pássaro preto disse para o pássaro branco que iria voar, disse que queria voar para bem longe, sem prazo, sem um ninho para cuidar. Então o pássaro branco, fingindo expressão de dor, disse que também queria voar. Mas todos sabiam que ele não queria, todos que assistiam a cena viram suas patas cravadas no fio, todos sentiram angústia pelo pássaro preto, todos consentiram com o momento. O pássaro preto, todo carne e ossos vazados por dentro, preferia acreditar em tudo, optou por acreditar em tudo, preferia correr o risco de sofrer por tudo, pois achava que não havia vida sem fé. Ele acreditava que não seria bom desacreditar, optou por sempre segurar as patas do pássaro que o acompanhava. Começa a amanhecer, suas penas vão se esquentando, parece redundância dizer, mas o pássaro preto fica aquecido mais rapidamente, seu coração estava em trabalho contínuo, quase em estafa, a cor das penas pouco interferiu, o pássaro branco apenas se concentrava nas suas patas cravadas no fio. O pássaro preto faz sinal para voar, o pássaro branco finge não entender, o pássaro preto voa, o pássaro preto volta, o pássaro branco diz estar cansado, diz que o sol não está forte o suficiente, diz que há nuvens no céu, diz que sente a chuva chegar, diz que vai esperar, o pássaro preto diz que vai continuar acreditando em tudo, diz que vai voltar, diz que talvez desista do voo. A manhã passa silenciosa, enquanto os raios do sol tentam passar por entre folhas secas e galhos retorcidos queimando as penas pretas, o pássaro branco finge frio, a falta de sentimento toma conta das asas negras, ele percebe as patas brancas fincadas no fio, ele voa, sem mais uma palavra.
"Two birds on a wire
One tries to fly away and the other..."

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