quarta-feira, 12 de agosto de 2009

canibália_19 (flickr.com/sisartori/3815159783)

Seus medos e angústias (problemas, preocupações, contas, obrigações) eram guardados em amuletos sempre que tomada pela música. Rotineiramente entrava em cena como um corpo arrastado, envolvido por cordas de aço imperceptíveis que pareciam tentar partir a fina cintura, e em uma velocidade que machucava os olhos mais atentos, até que caia segurando porções do ar com os punhos cerrados e concentrando todo o corpo para respirar apenas pela pele. Não tinha nojo do chão, pois como ritual (advindo de uma obrigação) era seu corpo que deslizava acima de um pano úmido pelo palco empoeirado, e quando o tempo era curto ou inexistente ela fingia que o pó era resto de estrela e acariciava o chão (na queda) com ainda mais emoção.

Enquanto estava no chão, sem música, seus amuletos brincavam de libertar e prender medos e angústias, até que outra corda, que nunca existira (também), levanta o corpo desprovido de massa ao som da primeira melodia. Desde que a música toca seu corpo, em concomitância o sangue ferve, evaporando por cada poro que se encontra exageradamente aberto, exposto. O vapor, avermelhado, abafa todo e qualquer pensamento que por ventura possa se formar. Sua única preocupação é com o coração, arritmias e paradas, mas seu coração é forte demais, resiste a qualquer pulsação, acostumou com a dança.

Quando dança, desliza, não consegue pensar (na verdade nunca tentou). Dinheiro e maquiagem se tornam a mesma coisa: nada. Se sente nua flutuando entre notas musicais, não existe terra nem céu, o mundo é seu e se pudesse pedir algo a Deus naquele momento, não hesitaria nem por uma nota musical, pediria para a música nunca acabar, para que sua alma estivesse sempre alimentada e leve, capacitada para o voo plenamente.

domingo, 9 de agosto de 2009

conversa

Um casal se encontra em um sebo, enquanto o rapaz se esforça para fingir que não reconhece a moça, esta, segurando um bilhão de lágrimas, começa a proferir pensamentos que por muito tempo foram só seus:

_Então, eu te amo, apenas isso. É o que queria ouvir? Será que era exatamente isso que queria ouvir? Eu sei que não. Você sempre preferiu quando eu dizia que não te amava, só para poder tentar me conquistar um pouco mais. Agora olho para sua expressão muda e digo que te amo porque tenho a certeza de que essa é a única maneira de fazer você ir embora (sem ter que mentir). Tudo se tornou tão previsível, tão corriqueiro... passei a amar essa estabilidade... e se agora, ou algum outro dia você resolver inovar e recomeçar a encenar um amor de feriado, como tantas outras vezes, estará tudo acabado. Você é minha antiguidade mais rara, a peça de entrada de meu museu que estranhamente pode ser tocada por qualquer visitante, exceto seu dono. Não se preocupe em tentar encontrar voz para dizer que não sabe o que me responder, você nunca soube ao certo. Ah, me parece fascinante como a distância de uma montanha para um abismo pode ser tão ínfima. De alguma maneira você estará sempre comigo, me dando força, essa foi a única parte sua que restou. Eu te redesenhei para poder amar uma pessoa íntegra e agora eu não posso te ouvir porque demorei tempo demais te moldando para permitir que você se destrua mais uma vez. E se um dia me amar escreva um poema em um papel rabiscado e jogue-o, ainda inacabado, no mar.

Depois de tudo ouvir, o rapaz que vestia uma camisa azul celeste, sem querer, deixa cair uma lágrima do olho esquerdo e dois livros de poesia de Manoel de Barros, tropeça no degrau e sai do sebo. A moça, ainda em choque, vai a procura de seu livro, agora estava pronta para "desconhecer" seu passado.
algumas vezes penso em criar um amor para poder escrever centenas de cartas desesperadas, escrever sobre meu sábado à noite, encher de detalhes, sabendo que o suposto amor vai ler com desprezo, com preguiça, vai ignorar todo e qualquer esforço que eu faça para chamar a atenção ou surpreender.
deve ser bom ter um amor criado para não se sentir desamparado domingo meia noite e segunda de manhã cedo, criar um amor que quando começar a errar, quando começar a machucar, se possa usar uma caneta para consertar todos os defeitos. um amor que me faça escrever horas em um papel de 7 centímetros quadrados para depois jogá-lo fora, como se o amor morasse no lixo.
mas o amor não mora no lixo, mesmo o inventado, ele nunca vai ler todos os bilhetes, seria inviável. e se, por acaso, eu tirasse um pedaço meu e criasse a partir dele um amor, será que daria certo? não que eu queira um amor a qualquer custo, não quero um amor de verdade, quero uma brincadeira sob controle que me dê mais evasão, me dê pano para manga, um devaneio de carnaval duradouro.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

não é um poema do dia 29/07/2009

Azul, gaivota, manchas brancas macias.
Seria poesia,
poema sem rima que canta:
palavras bonitas ao acaso.

falta de sentimento fere o poema,
vira poema morto, sem sopro.
Tristeza e alegria somem
fundem-se
equilibram-se (e se anulam)

Pele, cheiro, gosto:
As repetições que sozinhas soam novidade.
Ser novo,
tornando-se velho.
As pessoas continuam sangrando, como se sobrasse sangue em seus corpos. Todas estas pessoas estão sangrando, desde as que apenas sangue são, de tão rubras, até as que pareciam ser apenas músculos secos, detentores de uma imaginável força bruta.
Quando o sangue começa a jorrar, a inundar o salão, acredita-se que se torna visível o que nem nomeável é, mas, neste momento, hão de aparecer corpos que fingem não ter sangue nem olhos, nem sensibilidade, nem tato, agindo como alma que nada teme e nada sente.
Algumas vezes, depois de muito sangrar, falta sangue. A pele empalidecida prenuncia fraqueza, os músculos secos começam a virar farelo e o que era corpo, íntegro, torna-se líquido escoando pelas gretas encontradas.