quarta-feira, 11 de setembro de 2013

conforto e paz

era sábado pela manhã, assim como todos os sábados pela manhã costumam ser lindos, esse também o era. não havia sol, não havia chuva. era um silêncio cinza que tomava o dia. era sábado de manhã, era hora de esperança, de a vida se refazer na barriga, e crescer - sendo em seguida vomitada sem o ácido amargo dos vômitos de rejeição. era sábado de manhã, o blackout escondia os poucos raios de sol, e nem sempre ao acordar é possível se lembrar que existe um blackout te impedindo de amanhecer. cerrou os olhos novamente, na procura de qualquer fresta de luz -não havia. fechou os olhos e se esquentou no calor que irradiava ao seu lado. abraçou com todos os braços possíveis na esperança de incendiar o quarto e desaparecer em cinzas. alguns calores são impossíveis de moderar, de ignorar, de se afastar. abraçou o corpo macio que repousava ao seu lado, e logo este se virou em sua direção. se olharam de olhos fechados e se beijaram sem tocar os lábios. era o calor que guiava cada movimento, cada toque, cada cheiro. o medo de acordar o corpo ao lado se transformou em prazer, e logo seu corpo rígido se derreteu em relaxamento e gozo. aproveitou o movimento sincrônico do momento para aquecer sua barriga, coxas, pés, pescoço e peito. seu corpo por completo se aqueceu. e o que poderia se tornar calor, logo se tornou completo conforto e paz.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Loucura, cara.

Que loucura.
É tudo uma tremenda loucura, cara. Olha só isso que está acontecendo, tente nos ver de fora. Você vai concordar comigo: loucura pura.
Às vezes me pego sozinho, me fitando a fundo no espelho, tentando descobrir o que se encontra por detrás daquele reflexo ralo. Do nosso reflexo ralo. E só consigo pensar: que loucura.
A cada dia tentando respirar mais fundo na certeza de que é o último, e estamos no abismo eterno da véspera de um mês. Respirar fundo diariamente por trinta dias me fazia cansar. Como se o efeito fosse o inverso: quanto mais se treina, menos se está pronto. Não posso negar que há trinta dias me vem um frio na barriga dia-ria-mente. Alguns dias se definem por serem dedicados a esquentar essa barriga fria, tentar enganar as borboletas que teimam em passear pelo meu estômago. E eu te dou flores, tentando desabrigar as borboletas. E eu te dou calor, tentando enganar meu frio. E eu te dou meu ar, temendo me perder por aí.
Agora estou ouvindo Cat Power, queria que você pudesse ouvir comigo a voz rouca dela tomando conta do ambiente, até que este fica preenchido de tal forma que só é possível relaxar. 
Quero ser um pedaço disso tudo que acontece por aí, e que invade a sua vida.
Que essa loucura seja perdoada em benção.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Profundamente

Eles se olhavam profundamente, como quem quer enxergar além, mas com as cabeças tão vazias de sentido que só encontrariam vento por detrás dos olhos. Tinham acabado de falar sobre cantores de Jazz que estavam curtindo no momento, esgotaram suas curtas listas, a seguir faltou assunto. Recorreram o mais depressa possível às xícaras na mesa, numa tentativa desesperada de disfarçar silêncio com cafeína. Engoliram o café lentamente, como quem quer tempo, espaço, fugir. As xícaras ficaram vazias. Ele olhou bem para o fundo da xícara e percebeu que ela estava tão vazia quanto ele. Uma sensação de desproteção, nudez, fraqueza. Sentiu seu corpo se derretendo em meio ao constrangimento dela, involuntariamente seu corpo começou a produzir lágrimas para encher a xícara vazia e para que assim pudesse beber algo, pudesse fingir sede, fingir qualquer coisa que disfarçasse um término. Ao começar a chorar o consciente pedia para que parasse, implorava, se arrastava aos joelhos com mãos em prece. Repetia para si mesmo “Não, lágrimas não. Por favor, que nada pontue esse fim. Que nada seja esse fim. É o fim? Não, lágrimas não. Por favor.”

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Raio de Sol

_Posso te fazer um pedido?
...
_Eu queria que você me amasse como se ama o Raio de Sol. como se ama o raio de sol pela primeira vez que o olha, que o percebe, que significa a existência do raio de sol. Eu não quero que você me ame por ser um raio de sol. o raio de sol a gente vê todo dia. o que foi o raio de sol no seu dia hoje? Eu quero que você me ame como ao Raio de Sol que te fez perceber que ao vê-lo fez sentido existir céu, sol, noite, lua, nascimento, morte. Quero ser o Raio de Sol principal, pois só ele poderá te iluminar nos dias de chuva, nos dias de noite, nos dias de lágrimas.
...
_Eu precisei te matar para saber que queria passar o resto dos dias te iluminando

sábado, 29 de junho de 2013

Sobre minha segurança

Passaram alguns anos, o cheiro de besouro que toma a casa por completo nessa época do ano não me apavora mais, sinto apenas o conforto de estar aqui, de saber que apesar de os anos terem passado muito permanece. Me sinto seguro em meio a besouros voadores - e nunca pensei que essa sensação fosse possível. O sentido da palavra segurança passa a se modificar diariamente, e o pouco de vida que já tive me deixa bastante confuso sobre o que serei. Seria culpa de uma combinação infeliz de signo, ascendente e lua? Nunca saberei, assim como sinto que nunca estarei seguro. Imagino como seria uma vida em que não se questiona o sentido de cada palavra que lhe cause. Mais que imaginar, gostaria de vivê-la.  Minha segurança, pautada em besouros, cheiros, abraços, vazios, abre meu peito e me torna uma cefaleia pulsátil em região periorbital. Há quem pense que seja uma dorzinha de cabeça. Há quem não perceba que uma cefaleia pulsátil em região periorbital impede o enxergar. São períodos em que me sinto cego, períodos em que questiono se algum cego realmente se sente seguro. Nesses momentos, de cegueira passageira, o conforto do cheiro dos besouros se transforma em terror. Você boceja com a mão na boca, você perde um pouco o ar, o terror se torna prisão. Volta à mente, de forma clara, o questionamento do que seria se sentir seguro. Inspiro, expiro, inspiro, expiro, numa tentativa calma de expirar todas as dúvidas que me formam humano. Inspiro, inspiro, inspiro, me encho de mim e durmo.

Gostaria de seguir um caminho seguro com a alma.