terça-feira, 13 de setembro de 2011

nudez

Acordei nu. Não há roupa que me caiba, não há livro que me cubra, não há boca para me explicar.
Acordei tão nu que foi preciso de um tempo para que eu começasse a compreender tamanha nudez, essa liberdade que assusta.
Não tem mais graça seu desentendimento de mim. Minha pele está aqui, você vai continuar fingindo que não está vendo? Até quando? Não tenho como te falar de cada cicatriz assim, estão todas tão cruas, tão visíveis. Eu sei que eu falo muito de cicatrizes, e nunca continuo. Pode sim parecer que não sei do que estou falando. Você acha mesmo que não sei do que estou falando? Meu Deus, porque estou falando? Porque está parado com esses olhos enormes em mim? Se você soubesse o quanto dói falar. Não posso te dar todas as minhas verdades como em presente, mas peço que acredite na minha dor.
E se não acreditar, olha, meu corpo se fecha, adormece, ileso.

domingo, 4 de setembro de 2011

olha, estou indo

Depois de um abandono desplanejado, volto com lamentos e cacos em mãos. Me é costumeiro aparecer assim: arrastado, cabisbaixo, sem muito motivo e explicações, sem qualquer racionalidade ou pedaço de pedra.
A racionalização me leva a um caminho torto, concluo que deve ser um misto de todas as pequenas dores que sozinhas não se sente. Mas racionalização é apenas uma tentativa branda e pobre de pôr água morna sobre feridas descicatrizadas. Não cura. Não ajuda. Engana, lava. Limpa algumas gramas de desespero, alimenta o infinito vazio que escorre ali, invariavelmente escorre ali.
Sinto que isso tudo ainda vai me destruir, arrancando pedaços, corroendo pele, ossos, vísceras. Sinto que isso tudo ainda vai alimentar minha vida. Sinto que tudo isso faz tão parte de mim. Sinto que cresço para poder ser subtraído em mim mesmo.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Esperando secar o céu


Ela estava esperando secar o céu, e disse isso sem perceber, da boca para fora, com aquela mania de menina pequena de não pensar e dizer:
_O que você está fazendo?
_Esperando secar o céu.
_Não está chovendo, meu amor. O céu está mais seco que a terra.
_Estou esperando secar o céu para pintar os balões. Disse com um sorriso leve, bem solto, daqueles sorrisos que dá lágrimas nos olhos só de lembrar, ai como eu gosto de sorrisos leves.
_Você tem muitas cores para os balões?
_Não, não tenho. Acabaram as cores no último quadro que pintei. Aquele que te dei, aquele que chamaram de borrão.
_Você está falando daquele pelo qual sou apaixonado?
_Sim, o famoso borrão. O sorriso não saia daquele semblante leve, mas também não se mostrava por completo. São os sorrisos mais bonitos, não vai doer seu rosto depois de um tempo, amacia meu peito como em amor.
_Sabe, eu gosto de balões coloridos, eu gosto de te ver pintada de várias cores, de seu vestido sujo, inlimpável.
_Posso misturar e quem sabe não consigo mais cores... Mas acho que não vai dar certo.
_E o céu?
_Secou.
_Vão ser quantos balões?
_Quantos balões você acha que cabem no céu?
_Muitos, oras.
_Você não entendeu.
_O que?
_Quero saber quantos balões cabem em um céu bonito. Mil balões tornariam o céu nublado, nublado de balões, imagine que triste.
_Um amarelo com rosa e um azul em tons claros e escuros.
_Só dois? Mas o céu é tão grande.
_Dois, e não centralizados.

domingo, 17 de julho de 2011

sorriso

O dia amanhece em um sorriso. Não se sabe se de alegria ou se é apenas mais uma forma de acordar o corpo, os músculos, os ossos. O sorriso. Indpendente de sua causa, contém em si a pura função de re-iluminar o dia, de refletir um desejo de que as coisas vão ficar bem, de que esse é o lugar mais confortável que existe naquele momento.

domingo, 19 de junho de 2011

florescer

"Moça, Olha só, o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê"
mostra-se que é de se entregar, e como uma rasteira interrompeu o resto da música. Sentia um peito pedindo ar, sensação de sufocamento, uma vontade sem tamanho de mergulhar ali dentro, ultrapassando célula-a-célula sem pedir qualquer licença. Às vezes não há tempo para pedidos, não há tempo para conter sangramentos, não há tempo para cerimonias, pois a dor é como flor, apenas nasce, mesmo quando se trata de asfalto, mesmo quando se trata de pedra nua, a flor, a dor, sempre acaba nascendo.