sábado, 15 de outubro de 2011

trêspontos

descobri a falta que você faria, ao perceber que eu poderia ficar sem você. deu um vazio, enorme. o quanto disso é amor, o quanto é costume? Seria eu uma pessoa boa? quantas perguntas se infiltram na dor de uma perda, quantas perguntas me tomam o pensamento enquanto um banner desfila com os dizeres "você está pensando mesmo nisso? sofra. sofra direito, sofra de mente aberta e vazia". mas eu continuarei pensando em milhões de outras coisas enquanto sofro, e continuarei me julgando por não estar pensando apenas na perda. descobrir a falta que você faria me tomou a tarde, e a tarde se tornou fogo, muito quente, muito intenso.
sabe, certas possibilidades me tomam o tempo, me tomam o corpo, me tomam por completo. não me sobrou... viver possibilidades.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

umdia

A maioria das coisas não lhe apareciam cruas. Muito condimento era quase um requisito para se aproximar de seu campo de visão, ou para se tornar visível. Seus olhos percorriam na busca do quase-nada, do cinza.
Todas as coisas lhe eram estranhas, sem sentido. acostumou-se a percorrer a história das histórias antes de terminadas, acostumou-se a ver que no fim não há uma resolução, há vazio, um enorme vazio. Repensou posicionamentos, percebeu que não havia o que fazer. Lhe restou o silêncio, propagar o vazio não faria muito sentido, se afogou no silêncio.
Não sabia mais conversar. A fala se tornou um tormento, passou a evitar palavras, evitar rostos, evitar sorrisos, se evitar. A impossibilidade das ocasionalidades tornou o silêncio um ídolo. O mundo é duro. O mundo é muito duro.
As palavras passaram a fluir pelos dedos, apenas pelos dedos, porque sentia que podia cultivar o silêncio assim, podia se esvaziar de alguns pesos, podia buscar o mínimo de leveza para caminhar. Logo o cambalear se tornou passos firmes, firmes de não-se-sabe-porquê, visto que era completo de vazio.

domingo, 2 de outubro de 2011

assintomático

Sua fala (antes) frenética me comunicou o assintomático. Respondi "que bobo", pensei realmente "que bobo", mal sabia que havia mais a ser dito. Porque nunca houve muito a ser dito do automático por você, além do que eu sempre soube ---> distância.
Seus olhos passaram a dizer mais do que a boca. Não que o automático tenha se tornado algo bom, todas as lágrimas que poderiam caber nos seus olhos enormes, fechando, O que é isso no seu rosto? Todas as possibilidades das coisas que, seus olhos... Necessidade.
Agora são suas mãos, visto que não cabia mais fala, nem olhos... As mãos estão frias e secas, como quem quer mostrar a alma desnuda. Sua alma está seca e fria, cansada, cansada, cansada. É como se tudo agora aparecesse em folhas brancas escritas em azul royal: automatismo automático automatismo automático. Sem nenhum som de fundo, sem nenhum conforto para os olhos. Tudo frio, tudo seco.
O peso do automatismo, do automático é a sua obrigação, a sua função em ser simplesmente. Longe de simplicidade, tudo dá voltas, voltas, voltas, voltas, automático, voltas, voltas, mundo automático, o tudo.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

nudez

Acordei nu. Não há roupa que me caiba, não há livro que me cubra, não há boca para me explicar.
Acordei tão nu que foi preciso de um tempo para que eu começasse a compreender tamanha nudez, essa liberdade que assusta.
Não tem mais graça seu desentendimento de mim. Minha pele está aqui, você vai continuar fingindo que não está vendo? Até quando? Não tenho como te falar de cada cicatriz assim, estão todas tão cruas, tão visíveis. Eu sei que eu falo muito de cicatrizes, e nunca continuo. Pode sim parecer que não sei do que estou falando. Você acha mesmo que não sei do que estou falando? Meu Deus, porque estou falando? Porque está parado com esses olhos enormes em mim? Se você soubesse o quanto dói falar. Não posso te dar todas as minhas verdades como em presente, mas peço que acredite na minha dor.
E se não acreditar, olha, meu corpo se fecha, adormece, ileso.

domingo, 4 de setembro de 2011

olha, estou indo

Depois de um abandono desplanejado, volto com lamentos e cacos em mãos. Me é costumeiro aparecer assim: arrastado, cabisbaixo, sem muito motivo e explicações, sem qualquer racionalidade ou pedaço de pedra.
A racionalização me leva a um caminho torto, concluo que deve ser um misto de todas as pequenas dores que sozinhas não se sente. Mas racionalização é apenas uma tentativa branda e pobre de pôr água morna sobre feridas descicatrizadas. Não cura. Não ajuda. Engana, lava. Limpa algumas gramas de desespero, alimenta o infinito vazio que escorre ali, invariavelmente escorre ali.
Sinto que isso tudo ainda vai me destruir, arrancando pedaços, corroendo pele, ossos, vísceras. Sinto que isso tudo ainda vai alimentar minha vida. Sinto que tudo isso faz tão parte de mim. Sinto que cresço para poder ser subtraído em mim mesmo.