terça-feira, 11 de agosto de 2026

Agosto

 Sempre foi o melhor mês. E eu nem sabia o porque. Janeiro era sempre muito inesperado, entre férias, viagem, ócio, dias sem ter o que fazer. Avançávamos para fevereiro, começava ano letivo, tudo ainda tinha um ritmo estranho, principalmente quando eram professores novos. Nunca fui muito afeito a grandes novidades. Meu gosto sempre esteve no observar, nas nuances, nas pequenices de pequenos gestos. Março me parecia ameno, ao menos tempo que parecia perto do meu aniversário, também parecia muito longe… logo era abril, o que sempre considerei um mês sem nenhum charme. Chegava maio, o dia das mães se engrandecia em flores, cores e gestos. No meu aniversário tinha uma nova oportunidade de ganhar algo que seria muito difícil de ter em qualquer outra época do ano - e geralmente tinha. Olho ao redor hoje e vejo muito da criança que fui, sempre contido nos pedidos, tendendo sempre a pedir algo que fosse viável - não queria deixar ninguém frustrado (me pergunto se eu estava nesse grupo). Junho eram bandeirolas, quadrilha, fogos. Tudo com muito expectativa e ao mesmo tempo fulgaz. Sempre achei estranho passar um mês ensaiando para 30min de apresentação. Ou comprar fogos durante a dias para rodar o braço desenhando no céu por segundos. Fui percebendo que minha satisfação está no preparo, não no ato. Julho chegava cheio de aniversário, comemorações, mas me parecia mais uma ponte entre São João e agosto. Agosto tinha um gosto diferente. Agosto é o mês do meu irmão, não sei se o fato de cada um da minha casa ser de um mês diferente ajudou a Fixar isso na minha mente, mas para mim maio sempre foi o meu mês, julho da minha mãe, agosto de meu irmão e outubro de meu pai. Mas nada era como agosto. Agosto sempre teve brilho, corpo, força. Agosto tem aquele brilho no olhar de quem sabe que é especial, e não faz nenhum esforço para sê-lo. Meu irmão é leonino, e sempre achei agosto com cara de que tinha uma juba bem grande e bonita. Agosto é muito bonito. Agosto foi se tornando mais especial assim como fui percebendo o quanto meu irmão era especial. Nunca houve tempo de ciúme, meu irmão não competia comigo. Somos completamente diferentes, e parecia que sempre soubemos disso. Por muito pareci mais fraco, e talvez realmente o fosse. Mas eu tinha um leão do lado, porque haveria de temer? Ele me deu força. Lembro de inúmeros momentos de apoio que recebi e formaram a pessoa que sou hoje. Como não amar agosto? Eu amo agosto. Recentemente agosto ficou um pouco agridoce, passei a me perder em datas, e quando me esforcei para lembrar eu percebi que de fato eu não queria lembrar. Mantive alguns esquecimentos. Agosto virou um mês longo. Agosto nunca vai ser um mês triste. Agosto me fez homem. Agosto se tornou uma lágrima e um sorriso no rosto, tudojunto. 

Eu amo agosto. 

terça-feira, 16 de setembro de 2025

o outro

 Descobri que talvez um pedaço de minha maior falta, saudade, dor, ausência, tristeza, vazio, escuridão, solidão, seja de mim mesmo. Se olhar e se encontrar nos olhos do outro não tem volta. O feito nunca mais poderá ser desfeito. O desfeito não existe. O dessaber é irreal. Então porque tocar numa realidade pungente, fatal? Não tem porque não tocar o self. O nomear é humano, não mais do que o medo de fazê-lo. Me sinto confortável com o externo pois minha viagem é interna. Não há sofrimento nisso. Muito menos gozo. Há o que há, apenas existência. Me sinto infinito quando me revisito. Aí, então, há o gozo? Sou dos caminhos, não do fim. Por um tempo isto também me estranhou. Para quê tanta culpa? Ou, o que seria de mim sem a culpa? Revejo e me apaixono exatamente na mesma intensidade - real. O verbo parece tão pouco, deixa tanto por dizer. É nesse contexto que escolho meu entorno: o outro não pode ser uma pessoa que não acesse o não-verbal, pois não há outra maneira de se comunicar. Minha existência não se acomoda em conceitos, apesar da fascinação. Não consigo me prender a datas, não me parece digno reviver situações de forma datada. Fico além, dentro de mim. Revisito quem revisito como quem encontra um rosto conhecido no caminho do trabalho. Como amo revisitar meu irmão - meu eu mais próximo de mim é um buraco no meu peito. Os outros, ainda presentes, acham que me conhecem. Acho engraçado, acho pequeno, acho ousado, acho ousado, acho um quase. 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

é uma carta

 se eu pudesse te escrever, o que eu te diria? eu posso te escrever, então te direi: te amo, estou com saudades, as coisas aqui até que vão bem, mas não vão melhor do que outrora. depois de tudo existe um vazio. não existe mais a alegria leve e completa. falta algo. é sobre lidar com a falta. não é sobre substituir a falta. não é sobre preencher, é sobre lidar. é sobre lidar com tantas coisas. não é sobre nada. músicas e habitos antigos são tão gostosos, lembranças de coisas boas e de coisas incríveis. obrigado. te amo. até breve - e assim a fé se renovou e descobri que fé não é questão de escolha.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

 Oi. Me diga quem és. Essa sombra que te sombreia de onde vem? Tu tem tua própria sombra? Que sombrinha. Queria alisar teu rosto sem te arranhar. Pois saiba que não vai ter carinho, pq o carinho tem espinho. Eu peso muito porque sei que consigo. Estou diante de mim mesmo e me considero inapto. Poderia eu me sentir apto de alguma coisa? Sinto cheiro de pavor. O que é o covid? Tem como escrever e não falar do covid? Se eu não escrevo sobre o covid e daqui há 60 anos un bisneto pegar minhas anotações e disser: como ele não falava do covid em plena  pandemia? A gente tá construindo uma ponte e só pensando em quais pontes estamos ligando. A coisa feita é a coisa em si. Como se sente tento construído uma ponte. Se sente responsável pelas pessoas passando ali. Pelo bicho passando ali. Pelo tudo passando ali  

Me diga quem és. 

diga em quem tu votas e eu te direi quem tu és


2021, um ano após uma catástrofe - ainda estamos nela, estamos presos nele. Utilizamos datas atuais muitas vezes no intuito de supor amadurecimento quando comparado com tempos passados. Me deparei com uma camisa com os dizeres “diga em quem tu votas e eu te direi quem tu és”, e só consigo pensar no tamanho da redução que isso torna o todo. Eu tenho tempo, eu prefiro que me diga quem és tu com muitas outras firulas. Não sou rico das paciências, mas tento. Entre dois pontos fixos existe um infinito. Entre dois pontos móveis existem muitos infinitos. O fardo do passar dos anos é viver o presente como se ele fosse presente, e tendo a ciência de que o amanhã é mais do que uma promessa - é uma certeza. E quem tem certeza de qualquer coisa que seja em 2021? Sei lá, não seria de 2020? 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

-oi, senti saudade daqui. senti saudade do que eu era quando aqui eu vivia. dentre tantas saudades, a saudade da leveza é a que mais machuca, e torna tudo ainda mais denso. é pesado. tudo é pesado. tudo me dói tanto. e fico em risos quando me lembro das queixas de outrora.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O insubstituível faz falta. Existe um vão no lugar que havia um apoio incondicional. A coisa mais linda do mundo é o amor incondicional, e foi com ele que descobri que o amor incondicional existe. Ele não tem comentários pequenos, ele não tem solicitações de pequenos ajustes. Ele é grande, enorme, e também é leve e invisível. Vez ou outra ele aparece, geralmente sob alguma demanda. Ele só é visível quando é encurralado e lhe pedem uma condição - sua existência se impõe ao negar. Foi assim que eu conheci o insubstituível, quando lhe foi pedido uma coisa pequena, mínima, despercebida, e ele se negou a se condicionar. Quando tudo tá uma zona, quando tudo tá muito doloroso, confuso, repressor: me lembro de você. Sinto saudades. Queria que todos tivessem um amor assim. Respira fundo. Seja grato.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Meu amor maior

Eu não sabia que já conhecia o amor da minha vida, e nem me lembro do dia que o conheci. Sei que éramos muito jovens e eu ainda mais jovem que ele. Sei que ele se apaixonou por mim antes mesmo de eu saber que era gente, e que gente foi ele que me tornou. O amor da minha vida tinha um jeito sorridente e tímido de levar a vida, enquanto eu tinha um jeito solto e desenrolado. Diziam que eu era difícil, que eu era duro, birrento e mandão. Ele não. Ele era um sorriso numa manhã de sol. Fomos crescendo juntos e vendo como um completava o outro, sendo completos opostos. Eu pedia para ver tv até tarde porque gostava de filme de terror, ele se escondia debaixo do cobertor e queria fazer um toque de silêncio e desligar a tv as 22:00. Ele via uma maratona de jogos de futebol e depois todos os programas de comentário esportivo, eu colocava a cabeça embaixo do travesseiro para tentar não ouvir o replay do mesmo gol centenas de vezes. Eu era de livros, ele de jogos... Nisso, fomos nos admirando e aprendendo um com o outro -enquanto achávamos que éramos opostos que não seria possível se juntar. 
Nesse processo de viver cada qual suas verdades fui percebendo que o que eu achava que era intriga, era na verdade admiração. Eu admirava sua leveza e felicidade fácil. Ele admirava meu modo determinado. Foi quando olhei pra ele e vi um velhinho, com muita sabedoria (e saúde e felicidade em demasia). Ele me olhou e perguntou: porque eu sou tão feliz? Eu mereço essa felicidade toda? Logo ele que nunca era de se questionar. Por não estar habituado com suas questões eu não soube responder. Fingi que não entendi e respondi que queria ser tão feliz quanto ele, e com essa resposta de fuga eu percebi que o invejava e que queria sentir todas aquelas coisas que ele sentia. E saí. Tinha medo de grandes assuntos e grandes dilemas. Saí sorrindo, pensando na provocação que esse senhor acabara de me fazer, e me sentindo desafiado a ser feliz. Com o passar do tempo nossos encontros eram cada vez mais esporádicos. Descaso meu que não sei administrar meu tempo, mas ele fazia de tudo para nossos caminhos se cruzarem, ele sabia o quanto era importante no meu crescimento... até que alguns anos depois eu me sentei, já cansado, numa cadeira de pracinha e logo depois ele sentou ao meu lado, me deu boa tarde, me disse o quanto o dia tava bonito e o quanto deveríamos ser gratos por um dia tão bonito. Olhei para o chão e vi que havia muito lixo espalhado pela rua, tinha um cachorro de rua esquelético e uma adolescente aos prantos  perto de umas árvores. Assustado olhei de volta para ele pronto para listar todos os problemas, mas então vi em seu rosto o reflexo do sol. O sol nunca havia sido tão lindo. Eu nunca tinha visto um dia tão lindo. Notei que era o meu amor que refletia o sol. Era meu amor emanando luz - mas ele não estava mais ali.

Obrigado por ter sido meu pai, meu irmão, meu amigo, meu filho. Obrigado por ter sido o melhor exemplo de ser humano que eu já conheci. Obrigado por me tornar uma pessoa melhor diariamente. Obrigado por não desistir de mim, por não desistir de ninguém, por lutar por todos.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

os olhos da paz

seus olhos eram a paz. não é "como se seus olhos fossem a paz". não é isso. não era representação. não era uma figura. eram a paz. essa mesma paz se tornou algo tão distante há alguns meses. as coisas não fazem mais sentido, sabe? eu não sei. eu me transformo frequentemente em pura saudade. eu ainda não entendo o que aconteceu. eu não entendo o que sempre julguei tão simples e lógico: o vazio. seus olhos, olhares, me tornam uma pessoa melhor. é uma lembrança viva em mim. não sei se quero entender. eu nego tanto isso tudo. sinto sua falta diariamente -não consigo falar sobre isso. parece que estou falando sobre o sentimento de outra pessoa. não quero conhecer essa pessoa. me afasto muito de mim desde que parei de ver seus olhos. o que está acontecendo? o medo nos faz tão covardes. eu não queria ser covarde. me tornei fraco. a fragilidade me deixa algo débil -eu sinto falta. os olhos mais lindos que já vi não estão mais próximos a mim, estão fora de meu alcance -e eu me sinto sem sentido desde então. seus olhos. seus olhos são tão lindos. me sinto oco. talvez eu seja. sua beleza me deixa tão fraco, e eu morro cada vez que percebo que nossa distância aumenta. eu estou muito morto. eu não sei.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

reencontros

alguns reencontros são como se olhar no espelho e finalmente poder se lembrar quem você realmente é. alguns reencontros são tão leves que parecem férias de verão numa ilha deserta, viagem de lua de mel, pudim depois do almoço... em alguns reencontros você finalmente entende porque muita coisa aconteceu da forma que aconteceu, e porque tantas outras deram errado. alguns reencontros nos fazem nos sentir finalmente vivos e reais. é muito difícil se sentir real. somos pesados. alguns reencontros são simplesmente isso: necessários. alguns reencontros não passam da necessidade de lembrar como as coisas já foram boas e como elas podem voltar a sê-lo. 
reencontros são apenas formas de se rever, se reentender. são possibilidades de se reinventar.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Elis

assisti Elis e lembrei de ti. as lágrimas jamais serão contidas em meu corpo, elas sempre serão bem vindas e respeitadas. chorei como há muito não choro. me derramei por inteiro em tuas lembranças. em teus gestos, em tua bondade incontida. por todas as dores que tu fingiu não ter. por tudo que não pude dizer. por tudo que sempre senti e admirei: percebi que ainda não aceitei nada que aconteceu. percebi que esse ano me atropelei por inteiro para não ter que ver tua ausência - tão sólida, tão irreal. ausência dói. parece que fui atropelado por algo que não tem nome e não tem forma. não tem pronto socorro que me acuda. não tem. teu rosto é tão lindo. dói. eu te vejo passeando por mim o tempo todo. eu te vejo em tudo de bom que faço e penso. tu é a bondade. me rasga por inteiro não te ter mais aqui por perto. o mundo se tornou um lugar tão escuro sem ti. tu era luz. tu plantou luz. de tão luz foi confundida com o sol e pouco foi glorificada. tu tornou as pessoas melhores pelo ato, pelo agir. é tudo tão fodido, que não faz o menor sentido. neguei tuas dores (nem sei porque). hoje todas elas são minhas. me vejo tentando entender o que aconteceu, me esforço muito, fico fraco - quero deitar em posição fetal e te ver de canto de olho fazendo cafuné. lembro de sangrar intensamente, sentir muita dor e medo. lembro de como tu me acalmou. lembro de como tua oração me fez curar. é tanta força. é tanta luz. é tanta! eu não sei se um dia saberei lidar com essa ausência que esvazia o mundo.
o mundo se tornou um lugar muito pior sem tua luz.
o mundo é meio treva, é meio grosseiro. o mundo é o que é.
eu te amo. serei sempre teu.

com todo meu amor,
sempre teu.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

joão conheceu marcos há 2 anos, há 1 ano estão namorando e há 3 semanas joão pediu marcos em noivado. joão, muitas vezes sente que não sabe o que está fazendo, marcos não sabe porque aceitou o pedido. marcos não quer que joão saiba de algumas coisas do seu passado. joão é um rapaz confuso, que aos seus 29 anos teme muito que aos 30 tenha que virar adulto e pagar as próprias contas. marcos tem medo de se casar e se tornar o que as pessoas sempre quiseram que ele fosse. marcos não sabe o que ele é. joão chora sem motivo aparente toda vez que toma banho sozinho. marcos acha que é uma boa pessoa, mas que algumas condutas anteriores suas faria joão duvidar disso. joão gosta de dormir logo após o sexo. marcos acha incrível como joão fica atento e conectado a ele depois de transar.
e foram felizes para sempre, ninguém sabe porque.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

a) que o esplendor da manhã não se abre com faca

a) que o esplendor da manhã não se abre com faca
a) que o esplendor da manhã não se abre com faca
a) que o esplendor da manhã não se abre com faca
a) que o esplendor da manhã não se abre com faca
a) que o esplendor da manhã não se abre com faca

te transformei em mantra, te repito todos os dias, te leio silencioso em todos os roda-pés. te leio nos olhos alegres e nos tristes. te leio nas entrelinhas das palavras que caem em meu colo feito bomba, e também nas que caem feito pluma. te leio, porque desde que te conheci não consigo não ler. choro. te leio no espelho quando me olho escovar os dentes, e quando não olho também. te leio ao acordar chateado ou ao receber uma boa notícia. te leio tanto porque tento te entender, e temo ter entendido tudo errado. O ESPLENDOR DA MANHÃ NÃO SE ABRE COM FACA. nomeou meu blog, nomeou meus dias, nomeou meus relacionamentos, meu trabalho, meu dormir. nomeou amizades. tu, além do medo, também me trouxe tranquilidade para observar, sentir, calar. queria que manoel de barros soubesse o quanto me modificou. carnal. então, com tanta paz, o medo é amenizado. finalmente me permiti testar esse auto-conhecimento não confidencializado, não explorado em análise, não dito em psicoterapia. às vezes o teste dói. sangra. testei querendo estar errado, querendo precisar de um tempo para repensar tudo que já se passou e amadurecer como quem se é outro ser. não consegui. era preto-no-branco. não tinha sequer um tom cinza para me fazer matutar um sentido qualquer. essa coisa assim sem tons... seca. dói. é a faca. ela por fim me olha nos olhos e sussurra: letra-a-fecha-parenteses-espaço-que-espaço-o-espaço-esplendor-espaço-da-espaço-manhã-espaço-não-espaço-se-espaço-abre-espaço-com-espaço-faca-fim(sempontomesmo)

domingo, 18 de setembro de 2016

os caminhos que nos encontramos são tão tortos que nem sei como começar a escrever sobre isso tudo. estamos há meses de distância, estamos muito distantes, e hoje, não sei porque hoje, mas foi hoje, você me atinge. era para ser uma banalidade sem sentido, era para estarmos falando sobre como a vida é engraçada, bonita e divertida. mas somos constituídos de verdades, e foi assim que nos machucamos e nos admiramos. aquilo que somos ainda vai nos destruir, né? mas só assim conseguimos ser nós mesmos, nessa união remota, distante, inacabável. no fim nos unimos para odiar tudo que nos machuca. tudo que te faz mal. tudo que me adoece. estou aqui, tá? e é tudo que eu sei dizer nesses momentos. porque foi tudo que eu gostei de ouvir nesses mesmos momentos. tudo dói, escorre, sangra, esvai. li isso ontem no "estar sendo, ter sido" da hilda hilst, e me senti tão acalentado. hilda hilst faz isso comigo, sabe? sinto que não estou só no canto do quarto com uma visão decadente do mundo. uma visão batida, banal, etc, mas que ninguém se move para mudar. nem sei mais do que estou falando, eu só queria falar com você e te abraçar. o abraço de alguma forma me ajuda nas dores emocionais, também li algo sobre essa sensação do abraço acalmar pessoas com asperger. somos todos a mesma coisa. somos repetições. somos únicos.
estou aqui, tá?

sexta-feira, 8 de julho de 2016

os bons

Os bons morrem cedo.
Dessas frases bobas que soltam para consolar um ente querido, que tentam explicar os ocorridos sem explicação. Dessas frases que acalmam. Dessas frases que doem. Dessas frases que veem acompanhadas de uma sombra nefasta. Dessas frases que arrancam um pedaço de ti com um sorriso de canto.
Não dá para esquecer do olhar, do sorriso, da bondade. Eram três características que não passavam jamais despercebidas. À sua porta existia um portal que impedia que qualquer mal entrasse, e era renovado às 18h com um terço. Eu te amo tanto.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Persona

Olhos grandes. Sangue. Silêncio. Preto e branco. São tantos o processos - são todos os amores.
Como pode uma força inexistente manter algo aceso por décadas?
Dois jovens. Dois estados distantes. Milhas. Muitas milhas. Não existe a hora certa de arriscar tudo e tentar por fim. Existe, pois, um momento de perceber que não existe hora certa? Que horas.
É um prego. Uma mão. Pregação. O sangue goteja - como quem não tem pressa de se deslocar. O sangue, pressionado, sangra. Eis que se pergunta: quem mais precisa de sangue? Eis que se responde: o mundo não foi feito para justiças. O sangue se esvai sem nenhum propósito. Fuga de pressão. 
O amor é a cura. O amor é uma doença. As mesmas pessoas falam as mesmas coisas e isso não faz nenhum sentido. A vida é "in". Tudo que acontece fora disso não. São acontecimentos. 
O silêncio, no fim, é o que temos. É o que os dois jovens tem. É a ousadia da vida real. Lá fora temem o silêncio - gritam, sussurram, conversam. São muitas cores, adornos e imagens. Falta o pretoebranco.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

De que forma os acontecimentos tomam forma e te formam?


Eu tenho medo de acontecimentos. Me abro, porque muito antes já estava exposto. Medo do poder dos acontecimentos. Medo do que o alheio pode se tornar em mim. Temo as grandes obrigações, temo os grandes compromissos, temo toda e qualquer coisa que possa parecer imutável num futuro qualquer. Não dá para acreditar que tudo ficará bem. Inconscientemente, algo que vez em quando se torna muito consciente, me vejo lutando por uma rotina com pequenos, sensíveis, mirrados resquícios de novidade. Me vejo lutando contra mim mesmo para que nada mude. O quão pesada e irreversível pode ser uma pequena mudança? 5 minutos de atraso? O medo engessa. O medo cega. Minha essência pede silêncio. Meu subconsciente ordena rotina.
Como de costume algo aconteceu comigo e por isso precisei vir escrever. Aconteceu um filme. É surreal o quanto me tornei permissivo à invasão dos filmes ao meu corpo... E hoje não sei se há vantagem nisso.
é  s-u-r-r-e-a-l.

segunda-feira, 7 de março de 2016

semtítulo

O que sobrou dos interesses carnais, brutais, fatais(?). No espelho nenhuma gota de esperança, nenhum coração de batom, nenhum arranhão descuidado. O chão se parece com uma promessa de firmeza, solidez, certeza. No chão: uma poça d'água. As coisas mais velhas do mundo ainda são novas, frescas, duras.
Olhos, peitos, coxas. Formam nada. É

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

grand mond


Que aquele garoto que ia mudar o mundo / Frequenta agora as festas do "Grand Monde"

sufoco

_Você já se sentiu sufocada?
_Sufocada como? De falta de ar?
_Você já se sentiu sufocada?
_(?)
_Pois é... Mal sabe a sorte que tem. Há muito que não me sinto assim, mas me lembrei de certa feita, de um dia péssimo. Acho que tive um déjà vu. Não sei. É inesquecível se sentir sufocado. Inicialmente está tudo bem, como tudo em nossa vida, e de repente -mas na verdade não é tão de repente assim- parece que te falta força para respirar, mas tu ainda inspira, sabe? Tu ainda oxigena, mas algo inconsciente parece se conscientizar e talvez seja hora de parar de respirar. Então tu se sente fraco, frágil, débil. Tu sente que não faz muito sentido, que as cores incomodam, queria que fosse tudo cinza, que os pássaros são desafinados, quer que o silêncio reine absoluto, tu clama por isolamento, exclusão, apagamento. Então chega um momento em que tu não sabe mais se está tentando se punir ou tentando punir o outro, mas pouco te importa quem sofrerá o que, porque tu já tá sufocando e tu nem sabe se quer sair disso ou se quer afundar de uma vez só.
_Não.
_Não fica assim, vai ficar tudo bem. Deus escreve certo por linhas tortas.
_Eu não sou uma linha torta. Ninguém escreveu nada. As pessoas são assim: sufoco. Eu sempre falei com meu leãozinho: "As pessoas são assim". Isso é tão nossa cara, que preciso ligar para ela. Estou com saudades.
_Como assim seu leãozinho? Sua amiguinha?
_Então, meu bem. Acho que já falei o suficiente. Vocês são assim, as pessoas são assim.
FIM